Desafios e crises nos impõem uma evolução e, para a civilização, em determinados momentos, o fortalecimento da noção de “coletivo” sob a individualidade foi uma evolução salvadora. Em plena Segunda Guerra Mundial, cidadãos da costa leste dos EUA apagavam as luzes para que os navios ancorados ou em movimento nos portos não fossem iluminados e, assim, os submarinos alemães pudessem com facilidade torpedeá-los. Neste mesmo caminho, Londres ficava totalmente às escuras para que os bombardeios alemães tivessem dificuldade em localizar a cidade ou os pontos estratégicos. A solidariedade coletiva era fator primordial em estado de guerra e ações domésticas implementadas por cada nação, mesmo distantes dos campos de batalha, faziam a diferença. Hoje vivenciamos uma “guerra” diferenciada, apesar da destruição se concentrar na economia e na vida, como em todos os conflitos. Estranhamente, suas batalhas são silenciosas e não existem mais fronteiras a serem ultrapassadas ou invadidas, pois o “Blitzkrieg”* alcançou a perfeição. Novamente, neste momento que fará parte da história da civilização, as ações “domésticas” adotadas pelas nações e seus povos podem fazer enorme diferença até que consigamos estruturar nosso contra-ataque.  

Durante a Segunda Guerra Mundial, a produtividade industrial cresceu 96%, navios cargueiros que levavam oito meses para ficarem prontos, em semanas estavam montados e quem produzia automóveis passou a fabricar tanques blindados e aeronaves de combate. Fabricantes de lingerie passaram a fazer redes de camuflagem ou paraquedas. Aposentados, mulheres e adolescentes fortaleceram a frente de mão de obra. Tudo era passível de reciclagem. Os impostos aumentaram e os salários diminuíram para se criar fundos a fim de financiar a guerra. Chegaram ao ponto de limitar a velocidade máxima nos EUA a 56 km/h para reduzir o consumo de gás e látex. Alimentos eram racionados para gerar excedente para as forças em campos de batalha em outros continentes, sendo que a Disney produziu um curta-metragem animado chamado “A comida vai ganhar a guerra”, exaltando a agricultura como uma questão de segurança nacional naquele momento. Todo esse esforço coletivo para o enfrentamento de uma crise, uma tempestade que passaria, cujo tempo de duração dependeria da intensidade desse esforço.

Nossa percepção de coisas que estão aparentemente longe não é de hoje, as mudanças climáticas, enormes problemas imigratórios, epidemias etc., estão acontecendo, mas para muitos era improvável que algum destes desafios bateriam a sua porta. Sempre foi mais cômodo adotar um comportamento coletivo de não apagar as luzes, considerando que as bombas nunca caíram sob nossas cabeças, sendo que, seguindo este raciocínio e considerando apenas o século XXI, várias guerras epidêmicas ocorreram no globo terrestre: o ebola matou pouco mais de 14 mil pessoas na África Ocidental; a Zika, cerca de 92 mil; e muitas outras comparativamente menores em mortalidade. Nunca consideramos estas “guerras” muito próximas ou possíveis de crescimento. Resumindo, nossa visão sempre foi de que guerra a nível mundial era coisa totalmente sepultada ou, quando muito, estaria restrita a nações ou, no máximo, a um continente. A atual pandemia veio para nos ridicularizar em nossas formas de pensar, agir, prevenir etc., nos avisando que desafios de nível mundial nunca serão apenas lembranças guardadas em museus.

Todas as nossas crises passadas ou presentes, sejam humanitárias, ambientais ou de saúde, nunca se mostraram uma história cativante, é a série cinematográfica que paramos de assistir de imediato no primeiro capítulo. Nunca conseguiram nos convencer de que algo ruim estaria bem próximo, logo, nosso interesse pela causa sempre ficou adormecido. A pandemia atual soou como um despertador barulhento nos acordando e tudo aquilo que pudesse ser um pesadelo no estado de sono se tornou real e presente ao amanhecer.

Líderes e nações pelo mundo afora tinham dificuldades em aceitar que estaria ocorrendo uma exterminação de judeus no leste europeu no começo da Segunda Guerra, até porque nossas mentes e nossos corações são bem projetados para desempenhar certas tarefas e inadequados para outras. Temos medo de que nossos filhos possam se machucar no balanço, mas, ao mesmo tempo, liberamos e facilitamos o acesso à alimentação nada saudável, e a percepção de risco somente se apresenta quando visitamos o pediatra. Como humanos, é fato que estímulos vividos aumentam a resposta emocional das pessoas, é a lei do “Teste de São Tomé”: acredito, mas somente vendo! Pesquisa apontou que pessoas que olham constantemente fotos suas apresentando o seu envelhecimento perante o tempo colocam o dobro de recursos em seus fundos de aposentadoria, sejam estes quais forem. Nunca olhamos com o cuidado necessário e de forma constante as fotografias das diferentes crises mundiais que ocorreram durante a existência da civilização, assim, pouco ou quase nada colocamos em um fundo neutralizador dos efeitos negativos destas. Podemos avançar agora em nossa percepção e torcer para não ocorrer uma pandemia climática, pois não teremos tecnologia disponível para a “vacina” e Marte ainda continua muito distante como casa.

Se um grupo de especialistas, psicólogos, filósofos, sociólogos, médicos, pesquisadores da saúde etc., se reunissem para planejar uma crise que a humanidade não tivesse condição alguma de enfrentar, não conseguiriam fazer algo tão eficiente quanto está sendo a atual pandemia. Este momento poderá servir de alerta para outras crises, que podem também não estar tão distantes. Agora convictos estamos de que aceitar intelectualmente uma verdade não resolve um problema. Aliás, o próprio negacionismo perante crises presentes ou futuras poderá ser visto como um erro grave ou como um crime imperdoável e nunca com certa parcela de assertividade… Saber, mas não acreditar, logo, não acreditar é não saber!

Uma senhora judia idosa leu no caderno do neto: “agradeço por estar vivo!”. Esta senhora havia decidido fugir da Polônia logo no início da invasão alemã, suas irmãs decidiram ficar e foram mortas pela SS (Tropa de Choque Nazista), seu neto é fruto desta decisão única e individual que salvou não apenas sua vida, mas a de seus filhos, netos, bisnetos e assim por diante. Todas as crises mundiais podem se intensificar como resultado de uma decisão individual de cada ser humano pelo globo, decisões que um dia se fundem no coletivo. Nós não conseguimos ler a história que estamos escrevendo, é como se usássemos uma caneta com tinta invisível. Possivelmente, ela será lida apenas pela geração que ainda não nasceu, assim, dependendo do que escrevemos, nossa geração pode ser escrachada em um futuro não distante pela quantidade de erros que cometemos.

A palavra “crise” deriva do grego krisis, que significa “decisão”. Se considerarmos que as crises tentam expor coisas antes escondidas, mudança climática versus aumento de temperatura, pandemia de Covid-19 versus aumento de pobreza, por exemplo, nossa decisão frente a isto revelará quem somos de fato e de direito. Está provado cientificamente que uma equipe de qualquer esporte tem muito mais probabilidade de vencer quando está competindo dentro de seu estádio, ginásio ou país, fruto da torcida que gera confiança e um incentivo poderoso para se chegar à vitória e, dessa forma, teremos de enxergar a Terra neste momento desafiador, visualizá-la como nossa única casa, não de forma idiomática, que não possa ser traduzida nem intelectual, mas de maneira íntima e arraigada dentro dos povos. Não estamos em uma rodada, mas sim em uma partida de final de campeonato e, como torcida, unidos no coletivo global, vamos fazer a nossa parte para ganhar!

* Tática de guerra alemã utilizada durante a Segunda Guerra Mundial.

Colaboração: Carlos Roberto Favoretto, do Conselho de Administração da Cocari

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